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Posts sobre: Treze dias ao lado de Dean Jones

15
jun
2016

O vestido simples de algodão, me dava um aspecto adolescente. Eu gostava. Fazia-me lembrar dum antigo aroma agradável; terra úmida, o piso de madeira recém-polido de uma casa de família, onde o pai trabalhava o dia todo e a mãe cuidava da casa e das crianças, e mesmo assim, ao final do dia, eles tinham um tempo divertido e afetuoso em família. Eu sentia falta da minha família. Muito.

Não era a bruxa que todos achavam. Ao contrário. Já fui uma pessoa afetuosa, simples, e que no passado, tudo o que mais desejara era um marido, filhos e uma casinha simples numa fazenda qualquer. Isso, até o mundo tirar as pessoas que eu mais amava da minha vida. Petrificando meu coração dentro do peito, que agora só servia para bombear sangue. Nunca soube que estava feliz, até conhecer a verdadeira infelicidade. Nunca soube que estava perdida, até ser achada por um pescador de beira de mar e me afundar em seus olhos azuis, tais como a água transparente do mar. Uma batida suave na porta me fez sair de meus pensamentos instantaneamente, e acabar de trançar meus cabelos dourados, já secos pelo vento delicioso do litoral.

— Reagan? — era a voz de Dean que me chamava, calorosa e encantadora como sempre.

— Estou vestida, pode entrar — não falei alto, mas foi o suficiente para que ele ouvisse, por que quando voltei a me olhar no espelho, Dean estava atrás de mim.

Dean estava bonito como sempre; o suave tom de dourado em sua pele, o denunciava como alguém que tomava sol diariamente. Os cabelos castanhos levemente dourados e com um brilho intenso, pareciam extremamente macios e convidativos para meus dedos inquietos. A linha perfeita de seu maxilar quadrado chamava meu nome, a ponto de quase me fazer cometer um deslize irreparável. Eu não sabia absolutamente nada sobre aquele rapaz, mas tinha certeza que tudo nele era diferente de mim, do meu mundo. Mas isso não me impedira de apaixonar-me perdidamente por ele.

— Serviu perfeitamente em você — Ele estava mais perto agora.

Sorri. Ele mesmo havia providenciado uma roupa limpa enquanto as minhas — rasgadas, por sinal — secavam esticadas no varal de sua casa, presumi.

— É... — concordei deslocada.

— Ah, é... O almoço já está na mesa. Minha mãe pediu para avisá-la — Dean começou a se afastar, andando até a saída do quarto — Nos vemos na cozinha, Reagan. Até mais.

— Até, Dean.

E se foi, fechando a porta atrás de si. Não consegui identificar o porquê, mas uma dor dilacerante tomou conta de meu peito, e tudo o que pude fazer, foi cair de joelhos e permitir que às lágrimas caíssem. Não era tão forte, afinal. Depois de um tempo chorando sozinha, resolvi deitar um pouco, estava exausta. Minha cabeça latejava e minha costela voltara a doer, lembrando-me do acidente terrível que eu sofri pela segunda vez.

 

Quando era menor, meus pais planejaram uma viagem de férias para o Colorado. Papai havia finalmente tirado férias de nossa empresa e entregado tudo a Dylan, prometera passar os dois finais de semana comigo e com mamãe por completo, sem pensar ou agir como o empresário que era. A viagem foi interessante e extremamente divertida, havia sido nossa primeira viagem de férias desde que havíamos nos mudado para Beverly Hills. Na volta, o avião que nos trazia caiu. Papai e mamãe morreram na hora, eu fiquei apenas com algumas escoriações leves. Eu tinha apenas sete anos... Na época, não entendia o porquê do avião ter caído e levado meus pais de mim, mas alguns anos depois, o caso de investigação foi reaberto e Dylan me noticiou, junto com os detetives que cuidavam do caso, de que o acidente fora premeditado. Nunca achamos os culpados...

Subi na cama estreita, recheada de lençóis brancos, e enfiei a cabeça no travesseiro, a fim de descansar um pouco, quem sabe a morte não se compadecia de minha situação e vinha me levar também... Mas, novamente, batidas na porta me tiraram o sossego.

— Entre — sibilei baixinho.

— Querida... Eu vim trazer sua comida, você não foi até a mesa então presumi que estivesse cansada ou indisposta. Sabe que precisa se alimentar, certo? — indagou dona Marta, com a voz exalando um carinho reconfortante.

Ela parecia querer cuidar de mim, como fazia com o filho dela. Nunca os vira juntos, nunca nem se quer havia saído daquele quarto. Mas as mães eram todas iguais... Ou não... Mas era isso que diziam por ai. Sentei-me devagar na cama, vendo-a trilhar um caminho até mim, novamente com uma bandeja na mão, repleta de alguns tipos de comidas típicas aqui no Brasil. Dona Marta descansou a bandeja sobre o criado-mudo e sentou-se ao meu lado, apanhando minha mão em seguida.

— Reagan, estamos aqui para tudo o que precisar, querida. Quero que se sinta em casa — murmurou complacente.

Assenti, um pouco confusa sobre o que falar.

— Ãhn... Obrigada, senhora Jones, é realmente muito gentil de sua parte acolher uma desconhecida em sua casa — ri-me um pouco, sendo acompanhada por ela logo em seguida — Mas não precisa se preocupar, dou no máximo uma semana para me acharem...

Um sorriso doce se instalou em seus lábios, um sorriso familiar, provavelmente foi dela que Dean herdou seu belo sorriso retangular.

— Bem, até lá eu tenho uma porção de coisas para te ensinar. Você parece ser o tipo de garota que não sabe fritar um ovo, acertei? Não precisa responder, sei que sim. Agora coma, querida. Temos muito a fazer e já é meio-dia. Meio-dia! — ela dizia tudo rapidamente.

Ri de seu alvoroço e trouxe a bandeja para meu colo, observando o que tinha para comer. Eram comidas tipicamente brasileiras, então, como minha metade brasileira era um tanto culta, eu sabia que se tratava de bife, feijão, arroz, batatas fritas e um copo de suco de tamarindo. Não fazia ideia de que atividades dona Marta se referia, mas estava um tanto (ou muito) curiosa para descobrir, até porque o tédio já começara a me consumir. Tratei de engolir tudo o mais depressa possível. A mulher fez questão de me esperar, olhando-me comer com uma satisfação encantadora estampada em seu rosto, os olhos castanhos brilhavam.

— Pronto, já podemos ir — anunciei, tomando o último gole do meu suco e limpando a boca com um guardanapo de papel.

Dona Marta riu um pouco e logo se levantou, estendendo uma mão para me ajudar. Aceitei e logo rumamos para fora do minúsculo cômodo onde eu dormia. Quando saímos do quarto, me pus a reparar em tudo pela casa. Nunca havia estado em uma casa de pescadores antes. Era aconchegante e consideravelmente menor do que eu estava acostumada. A casa tinha as paredes pintadas aleatoriamente de amarelo-ouro, azul-céu e branco-perola, o piso revestido por azulejos brancos, na sala, sofás de dois e três lugares, uma mesinha de centro, um tapete simples de algodão, uma televisão e uma mesinha de canto com um vaso de planta minúsculo e um telefone fixo antigo na cor azul.

A mulher me conduziu até a cozinha da casa, que por ela ser minúscula, era em estilo americano. Na bancada que dividia a cozinha, tinham dois bancos, e dentro do cômodo, uma mesa de madeira, coberta com uma toalha branca bordada, com seis polidas cadeiras ao seu redor. Armários pregados nas paredes e uma geladeira, um fogão e uma pia completavam o resto do ambiente. Também reparei que em cima da mesa, estavam várias panelas, formas, rolo de macarrão e alguns ingredientes que eu não fazia ideia de qual eles serviam para preparar. A senhora Jones finalmente parou de andar e eu me sentei em uma das cadeiras da mesa, esperando que ela me dissesse alguma coisa.

— Vou preparar alguns pães e bolos, gostaria que me ajudasse Reagan — pediu sorridente.

Confirmei com um maneio de cabeça, as palavras parecem ter fugido de mim. Minha mãe não teve a chance de me ensinar a cozinhar, a única coisa que conseguimos fazer antes de sua morte foram biscoitos de polvilho, que ficaram uma delícia, diga-se de passagem.

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06
jun
2016

O vestido simples de algodão, me dava um aspecto adolescente. Eu gostava. Fazia-me lembrar dum antigo aroma agradável; terra úmida, o piso de madeira recém-polido de uma casa de família, onde o pai trabalhava o dia todo e a mãe cuidava da casa e das crianças, e mesmo assim, ao final do dia, eles tinham um tempo divertido e afetuoso em família. Eu sentia falta da minha família. Muito.

Não era a bruxa que todos achavam. Ao contrário. Já fui uma pessoa afetuosa, simples, e que no passado, tudo o que mais desejara era um marido, filhos e uma casinha simples numa fazenda qualquer. Isso, até o mundo tirar as pessoas que eu mais amava da minha vida. Petrificando meu coração dentro do peito, que agora só servia para bombear sangue. Nunca soube que estava feliz, até conhecer a verdadeira infelicidade. Nunca soube que estava perdida, até ser achada por um pescador de beira de mar e me afundar em seus olhos azuis, tais como a água transparente do mar. Uma batida suave na porta me fez sair de meus pensamentos instantaneamente, e acabar de trançar meus cabelos dourados, já secos pelo vento delicioso do litoral.

— Reagan? — era a voz de Dean que me chamava, calorosa e encantadora como sempre.

— Estou vestida, pode entrar — não falei alto, mas foi o suficiente para que ele ouvisse, por que quando voltei a me olhar no espelho, Dean estava atrás de mim.

Dean estava bonito como sempre; o suave tom de dourado em sua pele, o denunciava como alguém que tomava sol diariamente. Os cabelos castanhos levemente dourados e com um brilho intenso, pareciam extremamente macios e convidativos para meus dedos inquietos. A linha perfeita de seu maxilar quadrado chamava meu nome, a ponto de quase me fazer cometer um deslize irreparável. Eu não sabia absolutamente nada sobre aquele rapaz, mas tinha certeza que tudo nele era diferente de mim, do meu mundo. Mas isso não me impedira de apaixonar-me perdidamente por ele.

— Serviu perfeitamente em você — Ele estava mais perto agora.

Sorri. Ele mesmo havia providenciado uma roupa limpa enquanto as minhas — rasgadas, por sinal — secavam esticadas no varal de sua casa, presumi.

— É... — concordei deslocada.

— Ah, é... O almoço já está na mesa. Minha mãe pediu para avisá-la — Dean começou a se afastar, andando até a saída do quarto — Nos vemos na cozinha, Reagan. Até mais.

— Até, Dean.

E se foi, fechando a porta atrás de si. Não consegui identificar o porquê, mas uma dor dilacerante tomou conta de meu peito, e tudo o que pude fazer, foi cair de joelhos e permitir que às lágrimas caíssem. Não era tão forte, afinal. Depois de um tempo chorando sozinha, resolvi deitar um pouco, estava exausta. Minha cabeça latejava e minha costela voltara a doer, lembrando-me do acidente terrível que eu sofri pela segunda vez.

 

Quando era menor, meus pais planejaram uma viagem de férias para o Colorado. Papai havia finalmente tirado férias de nossa empresa e entregado tudo a Dylan, prometera passar os dois finais de semana comigo e com mamãe por completo, sem pensar ou agir como o empresário que era. A viagem foi interessante e extremamente divertida, havia sido nossa primeira viagem de férias desde que havíamos nos mudado para Beverly Hills. Na volta, o avião que nos trazia caiu. Papai e mamãe morreram na hora, eu fiquei apenas com algumas escoriações leves. Eu tinha apenas sete anos... Na época, não entendia o porquê do avião ter caído e levado meus pais de mim, mas alguns anos depois, o caso de investigação foi reaberto e Dylan me noticiou, junto com os detetives que cuidavam do caso, de que o acidente fora premeditado. Nunca achamos os culpados...

Subi na cama estreita, recheada de lençóis brancos, e enfiei a cabeça no travesseiro, a fim de descansar um pouco, quem sabe a morte não se compadecia de minha situação e vinha me levar também... Mas, novamente, batidas na porta me tiraram o sossego.

— Entre — sibilei baixinho.

— Querida... Eu vim trazer sua comida, você não foi até a mesa então presumi que estivesse cansada ou indisposta. Sabe que precisa se alimentar, certo? — indagou dona Marta, com a voz exalando um carinho reconfortante.

Ela parecia querer cuidar de mim, como fazia com o filho dela. Nunca os vira juntos, nunca nem se quer havia saído daquele quarto. Mas as mães eram todas iguais... Ou não... Mas era isso que diziam por ai. Sentei-me devagar na cama, vendo-a trilhar um caminho até mim, novamente com uma bandeja na mão, repleta de alguns tipos de comidas típicas aqui no Brasil. Dona Marta descansou a bandeja sobre o criado-mudo e sentou-se ao meu lado, apanhando minha mão em seguida.

— Reagan, estamos aqui para tudo o que precisar, querida. Quero que se sinta em casa — murmurou complacente.

Assenti, um pouco confusa sobre o que falar.

— Ãhn... Obrigada, senhora Jones, é realmente muito gentil de sua parte acolher uma desconhecida em sua casa — ri-me um pouco, sendo acompanhada por ela logo em seguida — Mas não precisa se preocupar, dou no máximo uma semana para me acharem...

Um sorriso doce se instalou em seus lábios, um sorriso familiar, provavelmente foi dela que Dean herdou seu belo sorriso retangular.

— Bem, até lá eu tenho uma porção de coisas para te ensinar. Você parece ser o tipo de garota que não sabe fritar um ovo, acertei? Não precisa responder, sei que sim. Agora coma, querida. Temos muito a fazer e já é meio-dia. Meio-dia! — ela dizia tudo rapidamente.

Ri de seu alvoroço e trouxe a bandeja para meu colo, observando o que tinha para comer. Eram comidas tipicamente brasileiras, então, como minha metade brasileira era um tanto culta, eu sabia que se tratava de bife, feijão, arroz, batatas fritas e um copo de suco de tamarindo. Não fazia ideia de que atividades dona Marta se referia, mas estava um tanto (ou muito) curiosa para descobrir, até porque o tédio já começara a me consumir. Tratei de engolir tudo o mais depressa possível. A mulher fez questão de me esperar, olhando-me comer com uma satisfação encantadora estampada em seu rosto, os olhos castanhos brilhavam.

— Pronto, já podemos ir — anunciei, tomando o último gole do meu suco e limpando a boca com um guardanapo de papel.

Dona Marta riu um pouco e logo se levantou, estendendo uma mão para me ajudar. Aceitei e logo rumamos para fora do minúsculo cômodo onde eu dormia. Quando saímos do quarto, me pus a reparar em tudo pela casa. Nunca havia estado em uma casa de pescadores antes. Era aconchegante e consideravelmente menor do que eu estava acostumada. A casa tinha as paredes pintadas aleatoriamente de amarelo-ouro, azul-céu e branco-perola, o piso revestido por azulejos brancos, na sala, sofás de dois e três lugares, uma mesinha de centro, um tapete simples de algodão, uma televisão e uma mesinha de canto com um vaso de planta minúsculo e um telefone fixo antigo na cor azul.

A mulher me conduziu até a cozinha da casa, que por ela ser minúscula, era em estilo americano. Na bancada que dividia a cozinha, tinham dois bancos, e dentro do cômodo, uma mesa de madeira, coberta com uma toalha branca bordada, com seis polidas cadeiras ao seu redor. Armários pregados nas paredes e uma geladeira, um fogão e uma pia completavam o resto do ambiente. Também reparei que em cima da mesa, estavam várias panelas, formas, rolo de macarrão e alguns ingredientes que eu não fazia ideia de qual eles serviam para preparar. A senhora Jones finalmente parou de andar e eu me sentei em uma das cadeiras da mesa, esperando que ela me dissesse alguma coisa.

— Vou preparar alguns pães e bolos, gostaria que me ajudasse Reagan — pediu sorridente.

Confirmei com um maneio de cabeça, as palavras parecem ter fugido de mim. Minha mãe não teve a chance de me ensinar a cozinhar, a única coisa que conseguimos fazer antes de sua morte foram biscoitos de polvilho, que ficaram uma delícia, diga-se de passagem.

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04
jun
2016

Diferente da última vez, dessa, eu consegui rolar para o lado; em um colchão macio e quente, uma cama, presumi. Abri os olhos lentamente, para que se acostumassem com a claridade do cômodo. Eu estava em um quarto simples, onde havia apenas a cama em que eu deitava, um criado-mudo com um copo, alguns frascos de comprimidos e uma jarra meia de água, um armário gasto, com um grande espelho pregado, uma porta e uma janela de vidro com uma cortina branca que balançava constantemente pelo vento que o litoral emanava.

Sentei na cama devagar, pois não sabia a quantidade de membros que havia machucado. Algumas coisas na minha mente eram apenas um borrão, mas outras, como a queda do avião, eu lembrava muito bem, com certa dor e amargura, o gosto de bílis subindo à boca. Meus pés descalços e quentes tocaram o chão frio com sutilidade, pondo-me em pé logo em seguida. Caminhei em direção ao espelho, buscando ver o estrago que a queda havia me causado.

Dito e feito; parada em frente ao espelho, fitei meu reflexo abatido. Arranhões pelo rosto, braços e alguns hematomas ainda vermelhos, que provavelmente ficariam roxos depois de algumas horas, espalhados pelas pernas e ombros. Nenhum ferimento grave, além da dor que eu sentia no lado esquerdo das costelas. Trajava um vestido simples, sem corte extravagante, sem modelagem, florido, que ia até o meio das minhas canelas. Ouvi o barulho da maçaneta girando e em seguida a porta gasta rangeu sob o porcelanato frio, o mesmo rapaz que me salvara na praia, meu anjo, entrou pela porta.

— Você está acordada, graças a Deus — entusiasmou-se, abrindo o sorriso de canto de boca mais lindo que eu já vira — Como está se sentindo?

Passei os dedos nos cabelos, para desembaraça-los, em um gesto nervoso. De repente, ficar em um quarto minúsculo com o meu anjo da guarda não me parecia tão boa ideia assim.

— Bem... Eu acho. Fora os hematomas e arranhões, só algumas dores na costela. Mas vai ficar tudo bem. — garanti-lhe.

— Se quiser podemos levá-la ao médico. Achei melhor deixá-la acordar antes — murmurou complacente.

Neguei com a cabeça.

— Não precisa. Vou ficar bem. Foram apenas alguns machucados...

— Então, você sabe o que aconteceu com você? — indagou receoso.

Assenti devagar. As palavras pareciam fugir de mim a cada pergunta feita pelo rapaz.

— O avião em que eu estava... Ele ca-caiu. Estávamos apenas eu, o piloto e algumas aeromoças e comissárias de bordo. Você achou mais alguém além de mim?

O vi negar com um maneio de cabeça. De um lado para o outro...

— Só você estava na praia. Tentei achar alguma coisa a respeito em noticiários de televisão... Mas não deu nada — anunciou cautelosamente, mas logo emendou — Acho melhor você descansar um pouco. Amanhã conversaremos melhor... Deve estar com fome, certo? Vou providenciar alguma coisa para você comer.

Não tive chances para responder, pois o rapaz disparou tudo rapidamente e saiu em seguida, encostando a porta assim que passou por ela. Caminhei de volta até a cama e sentei-me no colchão, subindo minhas pernas para cima do mesmo e encostando o tronco na cabeceira de madeira atrás de mim. Esperei algum tempo, até que algumas batidas na porta foram ouvidas e logo uma mulher de mais ou menos cinquenta anos passou por ela, com um sorriso bonito e familiar, carregava uma bandeja nas mãos.

— Olá, querida — saudou-me docemente —Trouxe algumas coisas para você comer, Dean disse que estava faminta.

Dean... Então esse era o nome do rapaz que a pouco conversava comigo.

Sorri e articulei um "oi" sem som, para a mulher sorridente e simpática a minha frente. Ela se aproximou da cama em que eu estava recostada e descansou a bandeja sobre o criado-mudo, foi aí que eu vi tudo o que ela carregava lá: um prato de sopa fumegante, um copo de suco de laranja e um prato com dois sanduíches naturais cortados em forma de triângulos. Eu estava morrendo de fome, e tudo me pareceu extremamente apetitoso.

— Tome meu bem, coma — Ela me estendeu a bandeja, colocando-a sobre meu colo.

Apanhei a colher e comecei a engolir colheradas quentes do conteúdo saboroso do prato.

— Eu sou Marta Jones, você ainda não nos disse seu nome... — apontou.

Sorri e descansei a colher no prato por alguns instantes.

— Sou Reagan McLaren — e voltei a tomar a sopa, sem a menor vontade de conversar.

Marta continuou a me olhar de uma forma doce, quase como uma mãe olhando para sua filha que acabara de chegar do treino de natação, morta de fome. Eu sentia falta disso. Desde que mamãe morrera, só podia contar com Dylan, Fanny e Maddisson. Eles eram a minha única família, ainda que não biologicamente, mas eu os amava como se fossem.

— Imagino que esteja muito confusa não é, Reagan? — assenti e então ela continuou — Gostaria que falasse um pouco sobre você... Sobre como veio parar aqui na praia, toda machucada... Seria pedir muito? Depois prometo que lhe respondo tudo o que quiser — prometeu.

— Okay, vamos lá — descansei novamente a colher sobre o prato — Eu moro nos Estados Unidos e vim pra cá a negócios. Sou empresária. Não sei ao certo o que houve... Mas... O jato em que eu estava caiu. Não sei onde estão o piloto e os funcionários que estavam lá dentro. Também não sei como entrar em contato com ninguém de lá... Perdi todas as minhas coisas. O avião parece não ter caído aqui perto. Acho que fui arrastada pela maré até aqui — concluí um tanto confusa.

Tentei explicar tudo sem me expor muito, mas já sabia que havia falhado. Meu grande problema, é que eu detestava me abrir para pessoas que eu não conhecia. Maddisson costumava dizer que minha falta de confiança era deprimente.

— Vai ficar tudo bem, querida — assegurou-me.

Eu queria perguntar quem era o cara que me salvou lá na praia... Mas tinha medo de soar invasiva de mais. Preferi guardar minha curiosidade só para mim. Terminei de engolir o conteúdo da tigelinha consideravelmente rápido e logo larguei a colher sobre o prato, limpando a boca com um guardanapo de papel que havia em cima da bandeja.

— Bem, agora eu vou lhe deixar descansar em paz. Se precisar de alguma coisa, por favor, não hesite em me chamar — pediu, com um sorriso nos lábios.

— Obrigada — murmurei grata.

E ela se foi, levando a bandeja com o prato vazio e a colher suja. Sem mais nada para fazer, me deitei, adormecendo logo em seguida.

 

Um som delicioso do cantar de pássaros podia ser ouvido de meu quarto. Despertei assim que o sol ficou alto, entrando pelo cômodo e se instalando no mesmo sorrateiramente. Cocei os olhos, me estiquei e bocejei, levantando da cama em seguida. Prendi meus cabelos com as mãos, em um coque frouxo. Estava descabelada e grudenta, provavelmente pelo contato com a água do mar, não sabia como havia conseguido dormir naquele estado. A dor na costela havia diminuído, mas ainda estava lá, me incomodando... Quase como um lembrete da catástrofe que eu havia passado.

Mais batidas na porta foram ouvidas, murmurei um "pode entrar" baixo e logo vi a porta se abrir, contemplando a imagem impecável de Dean, que acabava de passar pela mesma. O rapaz carregava uma sacola de papel preto, com um logo até então desconhecido por mim.

— Bom dia, Reagan. Trouxe roupas limpas para você — anunciou, pousando a sacola em cima da cama.

— Obrigada, eu realmente não sei como agradecer tudo o que estão fazendo por mim... — murmurei no tom mais calmo que o meu nervosismo permitiu.

Não fazia a mínima ideia do quê estava acontecendo comigo... Não lembrava de ficar constrangida pela presença masculina desde os quinze anos. Talvez por que nunca tenha acontecido, até as presenças masculinas mais opressoras não conseguiam me fazer baixar a cabeça ou até mesmo ruborizar, coisa que raramente acontecia.

— Não precisa agradecer, faríamos isso por qualquer um — respondeu-me.

Confesso que, depois dessa, eu me senti a última pessoa do mundo.

— Bem, vou deixar você à vontade. O banheiro fica no corredor, tem toalhas limpas dentro do armário. Se precisar, pode chamar — e saiu do quarto logo em seguida, sem me dar a chance de responder ao menos um obrigada.

Sozinha no quarto, decidi tomar logo um banho e abandonar de vez ruim impregnada em meu corpo.

 

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23
maio
2016

Assim que acabei de arrumar as malas, Maddie chamou um táxi e rumou de volta para a empresa. Ainda com tempo, tomei meu banho e comecei a me arrumar; separei um vestido branco com algumas listras pretas, um casaco preto e um par de sapatos de saltos altos Jimmy Choo. Um dos meus pares prediletos. Depois de me vestir, fiz uma maquiagem leve, apanhei minha bolça, minha única mala para aquela viagem e tranquei meu apartamento. Depois de checar todas as portas e janelas.

O caminho até o aeroporto internacional de Beverly Hills foi tranquilo, sem muito trânsito e consequentemente sem atrasos. Dispensei o motorista, apanhei minha mala e caminhei até a plataforma de Check-in, onde fui informada de que o jato particular da M. H. E. junto com o piloto, já estavam esperando apostos na pista de decolagem. Minha passagem foi liberada e eu finalmente rumei de encontro ao grande jato branco.

— Tudo pronto para o voo, senhorita McLaren — Ryan Keysle, o único cara em quem eu confiava cegamente, depois de Dylan, avisou, enfiando a cabeça dentro da cabine do avião.

— Tudo bem, Ryan, estou pronta.

O rapaz assentiu e saiu, fechando a porta da cabine.

Arrumei a meu vestido no corpo e me mexi na poltrona, pronta para uma longa viagem. Eu iria tirar o máximo de proveito dessa viagem idiota, já estava decidida. Se Dylan iria mesmo me obrigar a viajar para a minha terra natal, eu ia colocar o meu melhor disfarce à mostra, e ia fazer todos aqueles empresários babacas engolirem seus dentes e suas línguas antes de soltarem piadinhas sem graça a respeito de mim. Assim que o jato decolou, uma das aeromoças me trouxe um copo de água e eu logo tratei de engolir duas cápsulas de calmantes, adormecendo em seguida. O constante chacoalhar do avião, me fez despertar, deixando-me apavorada e em alerta. Eu simplesmente odiava turbulências. Davam-me náuseas, enjoos e eu sempre entrava em pânico.

Estamos passando por uma área turbulenta, favor apertar o cinto de segurança e se manter sentada, assim que possível, voltaremos a circular pela cabine conforme o necessário — a voz da aeromoça soou abafada pelos alto falantes espalhados aos quatro cantos da cabine consideravelmente minúscula, se comparado a um avião normal, onde em apenas um corredor, se espremem centenas de poltronas.

Fechei os olhos e tentei me acalmar, mas só consegui piorar as coisas, pois, assim que o avião chacoalhou mais uma vez, cravei as unhas na poltrona de couro bege. Meu cérebro não foi rápido o bastante para processar tudo por completo, mas em fração de segundos, nossa altitude caía consideravelmente, como se estivéssemos pousando, o que eu sabia que não era o caso.

E tudo o que senti em seguida, antes de apagar, foi dor.

 

A água fria e salgada do mar lavava todo o meu corpo, cada vez que mais uma onda vinha, eu sentia e ouvia o som gostoso da água se mexendo. Tentei rolar para o lado, mais a dor dilacerante na costela, me impediu de continuar. Eu estava estirada sob a areia molhada, sabia que estava. Ouvi passos rápidos e abafados, em seguida, alguém se abaixou perto de mim, tocando meus braços, pescoço e pernas, quase como se fizesse um check-up para ver se estava tudo bem.

— Eu tirar você daqui, vai ficar tudo bem... — a voz masculina sussurrou perto de meu ouvido.

E foi aí que eu consegui abrir meus olhos, dando de cara com o rosto magnífico de meu anjo da guarda. Contemplei seus traços bonitos, e levemente angelicais, finalmente parando em seus olhos azuis como a água salgada do mar. Alguma coisa dentro de mim se comprimiu, dando espaço para um sentimento que me preencheu de uma forma assustadora, tapando o vazio que ficara depois de sofrer tantas perdas irreparáveis. Passando seus braços pela curva da parte de trás de meus joelhos e pelas minhas costas, o rapaz me acomodou em seus braços e me tirou do chão. Caminhando á passos firmes, trilhamos um caminho para sei-lá-onde. Apaguei novamente.

 

 

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20
maio
2016

Tédio.

Era tédio que eu sentia no meio daquela reunião chata, cheia de acionistas de meia-idade.

Eu não precisava me submeter aquilo.

"Precisa sim! Você escolheu esse caminho, garota." — a voz feminina da minha consciência me disse calmamente. Ela era bonita. Uma mulher exatamente como eu, de altura mediana, longos cabelos dourados, e roupas elegantes. A loura carregava dezenas de sacolas de grife em seus finos braços pálidos.

Ignorei-a, tamborilando os dedos no tampo da mesa de granito negro.

— Bem, senhores... — pigarreei, atraindo a atenção dos velhotes de rosto parcialmente amigáveis — Espero que não se importem, mas, eu realmente preciso estar em outra reunião agora.

Levantei-me com o máximo de elegância que o meu tédio permitiu e, arrumei o blazer branco no corpo.

— Não pode Reagan — Joe, um rapaz de mais ou menos a minha idade, se levantou junto comigo — A reunião ainda não acabou, não decidimos nada.

Joe Singlenton era um rapaz pra lá de desagradável. Sempre fora. Eu só havia contratado aquele rapaz recém-formado, por que Dylan, um dos meus velhinhos e sócios favoritos, havia me pedido um favor. E eu devia isso a ele. Então, o fiz.

— Singlenton, antes de qualquer coisa, quero que fique bem claro que só o integrei na empresa em consideração a Dylan, que respeito tanto quanto fiz com o meu pai — meu velhinho favorito sorriu para mim, acalentando o meu coração tempestuoso — Entretanto, sou eu quem manda aqui. A empresa é minha e nem Dylan vai me impedir de demiti-lo se você tentar me dizer oque fazer mais uma vez. Consegue entender isso, Joe?

O garoto magrelo engoliu em seco, e confesso, o meu eu mais frágil, aquele que raramente aparece, sentiu pena do pobre garoto indefeso. Afastei os meus pensamentos piedosos e comecei a juntar os meus documentos espalhados, colocando-os dentro de uma pasta marrom de couro. Apanhei a minha bolsa, e coloquei-a na curva de um dos braços.

— Senhores... — saldei, levantando-me.

A minha curta reverência àqueles cavalheiros de meia-idade, fez com que eles se levantassem, em um sinal de gentileza, e respeito a mim. Embora fosse eu quem devesse respeito a eles — por sua idade avançada, logicamente —. Mas, antes de eu ter chance de me mover, Dylan se aproximou de mim, cochichando um breve "precisamos conversar mocinha." em meu ouvido. Assim que saí da sala de reuniões, Elizabeth, minha secretária curiosa, acompanhou todo o meu trajeto até o elevador, com seus olhos cor de mel, os quais só serviam para xeretar a vida de pessoas inocentes como eu.

"Bando de inúteis." — minha consciência rosnou, andando pelo calçadão de Beverly Hills, cheia de sacolas de compras.

Enquanto eu esperava a caixa metálica do elevador chegar, repassei uma lista das coisas que teria que fazer naquele dia. Uma delas era entrar em um avião com destino ao Brasil. Aquela viagem estava me animando de uma forma assustadora. Eu não queria sentir sentimentos bons em relação àquele lugar que me causara tanto sofrimento. O elevador de serviço parou bem na minha frente, e com um típico "plim" de aviso, as portas metálicas se abriram, revelando um espaço consideravelmente vazio, exceto pelo casal de estatuas humanas que trabalhavam na minha empresa — obviamente, essa não era a função deles —. A mulher era visivelmente mais baixa que eu, cabelos castanhos, olhos grandes — e assustados —. Nem precisei me demorar muito olhando suas roupas, pois sabia que estavam amassadas, igualmente às do rapaz que estava parado ao seu lado. Ambos tomavam fôlego. E um eu ingênuo, dentro de mim, se perguntou o por quê.

"Ora, que coisa mais absurda! Eles estavam no maior amasso antes de você chegar, sua tola." — minha consciência escandalosa berrou, sedenta para ver sangue inocente jorrar para todos os lados.

Estalei a língua em desaprovação, e entrei no elevador. Esperei que as portas se fechassem, para que, como quem não quer nada, eu pudesse perguntar:

— Vocês sabem que qualquer tipo de relacionamento amoroso, dentro das dependências da empresa, é estritamente proibido, não sabem? — murmurei, olhando para frente.

— S-sim — ouvi o rapaz responder nervosamente, pigarreando em seguida. — Sim, senhorita. Nós sabemos.

Voltei-me um pouco para trás, apenas o suficiente para fitar os dois, totalmente constrangidos por estarem fazendo coisas ilícitas no ambiente de trabalho.

— Ah, achei que não sabiam... Nesse caso, espero que estejam prontos para enfrentar as consequências que a insanidade de vocês causou — eu disse calmamente, e voltei meus olhos para a porta que logo se abriria.

 

— Reagan, você tem que ter um pouco mais de paciência com o Joe — Maddisson disse, tentando soar paciente.

Maddisson Woodley era a minha melhor amiga, desde sempre. Maddie era filha de Dylan, e ocupava o cargo de enfermeira-chefe do departamento de enfermaria que a empresa possuía.

— Paciência, Maddisson? — quase gritei, jogando duas peças de roupa que eu tinha nas mãos, em cima da minha cama — Joe Singlenton é inconveniente, rabugento, mandão, folgado... Será que você quer que eu cite mais alguns adjetivos? Eu tenho vários...

— Não, Reagan. Não quero saber de sua lista abominável — Maddie me cortou.

Maddisson não se parecia em nada com Dylan. A garota tinha curtos cabelos ruivos, cem por cento naturais, segundo ela. Era baixinha, e magra. Tinha um corpo proporcional a seu belo rosto salpicado de sardas rosadas e alaranjadas. Mas não era na aparência que ela se diferenciava do pai, era no temperamento. Maddie era extremamente ansiosa, gostava de resolver as coisas antes da hora, e muitas vezes acabava por atropelar tudo, deixando uma bagunça pior do que já estava antes. Revirei os olhos. Ela estava fazendo drama. Sempre fazia.

— Tem noção do que aquele bastardo fez? — repliquei, indignada. — Eu já avisei a ele um milhão de vezes, mas ele insiste em me desrespeitar na frente dos meus sócios. Não tem mais, nem meio mais, Maddisson, se Joe fizer de novo, ele está no olho da rua.

A minha melhor amiga bufou e se jogou na cama, aparentemente frustrada.

"Tudo bem, Reagan, acalme-se." — repeti as palavras como um mantra para mim mesma.

Enfiei alguns fios que pendiam sob o rosto, atrás das orelhas e voltei a arrumar as minhas malas. Blusas, casacos, calças, vestidos, peças intimas, maquiagens e sapatos. Tudo aparentemente pronto para aquela viagem insuportável que eu faria ao Brasil.

Nasci no Brasil, metade brasileira, metade estadunidense. Meus pais se conheceram em uma prainha, no interior de uma cidadezinha que nunca gravei o nome. Minha mãe era brasileira, e vivia com a família perto do lugar onde conheceu seu marido, e papai, era norte-americano, ainda estudante, estava na cidade fazendo algum tipo de pesquisa para a empresa que ele sonhava abrir. Eles se conheceram por acaso; pelo que sabia da história, os dois tinham amigos em comum, e mamãe, monitorava algumas coisas no lugar em que meu pai fazia suas pesquisas. Eu odiava tudo que tinha relação com aquele lugar, um lugar que me fazia mal de mil formas possíveis.

— Desculpa Reagan — Maddisson me pegou desprevenida, tirando-me de pensamentos distantes — Sei que não tenho direito de me meter em sua vida profissional. Vou tentar não interceder mais por Joe.

Pisquei. Maddisson sorriu para mim.

— Obrigada — disse e abracei a minha amiga.

— Agora prometa que quando voltar do Brasil teremos uma noite de garotas — exigiu ainda sorridente, apontando o dedo indicador em minha direção.

— Palavra de escoteira — prometi, levantando a mão sob o ar, rimos juntas.

— Só para esclarecer, você nunca foi escoteira — resmungou.

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